domingo, setembro 19, 2010

Caro Blog

Ou seria Querido Blog? Bem, isso agora não tem importância. Hoje, Domingo, vou fazer de conta que és um diário. Sim, porque eu nunca gostei deles, nunca mesmo. 

Mas hoje acordei nervosa e de olhos tapados. Não há magia, nem palavras de ninguém. Estive a pensar e concluí que se pudesse saltava para fora de mim. Sabes, estou presa por um fio e cansada que as pessoas gostem das minhas palavras mas que não gostem de mim. 
É que depois não sei se sou eu que me esqueço de ser eu, ou se são elas que se esquecem de ver quem eu sou. É complicado. 

Olha, o Senhor Cesariny é que tem razão, eu preciso que gostem de mim de carne e osso, não das  minhas palavras. Até porque, já como dizia o outro Senhor de seu nome Rilke, os livros não chegam, não retribuem, nem sentem ou respondem. 
Se os outros me fazem sentir tão morta, mais morta que isto que sou, então não sei o que lhes hei-de fazer. Há uma ironia no meio disto tudo, qual ser ou não ser, isso não é certamente a questão. O problema é fio que me suspende e não há forma de o cortar. E olha que eu não sou uma marioneta, não sou. Mas hoje acordei de olhos tapados como os outros nos restantes dias. E lembrei-me dele, porque achava que hoje era o dia em que ele se lembraria de mim. Mas pensei mal. E pensar por pensar, mais valia não ter pensado, quanto mais lembrar-me de que estou presa a mim por um fio. 

Vou cair nas graças do esquecimento. Onde, certamente, não são 17 e 56 e não existe um pingo de ansiedade. 

Adeus Querido Blog,
até não ser Domingo.
Ponto.







Espera!!


Toma um poema....





Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas


(Adília Lopes,
Quem Quer Casar Com a Poetisa?)


sexta-feira, setembro 17, 2010

Pequena elegia de Setembro

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

(Eugénio de Andrade)

domingo, setembro 12, 2010


Enquanto dormes constrói-me um rosto de luz, no limbo do teu sonho. Toca-o e acorda-me.

Caminha comigo, peço-te, na inquietação daquele rosto, e nesta alegria suspensa na solidão.

Há séculos que te esperava para fugirmos. E não sabia que a fuga era possível pelas estradas de giestas em direcção ao mar.

Dorme, e consente que o meu coração escute o teu. Quero arder contigo, nesta eternidade feita de pontes atravessadas, kms nocturnos e segundos de asfalto.

Para trás ficou a cidade.

E tu sabes que a cidade só existe no apanhar um táxi. E perdermo-nos até amanhã – sem querer podermos dizer adeus, porque não se pode dizer adeus à paixão.

Amanhã, ou enquanto dormes – agora mesmo – vou pensar em ti. Intensamente: até que as horas me doam a pele, e o movimento dos dias passe como aves que perdem o sentido do voo – até que tudo o que me rodeia tome a forma do teu corpo.

E em mim circules – quando estendo a mão por dentro da noite e te acordo, no fogo dos meus olhos.

No fim do sono existe um vulcão.
De repente, a manhã. A bruma. Um pássaro. As coisas que me rodeiam com os seus segredos – mas as coisas, sabe-se lá, só existem porque as palavras dizem que existem. E os segredos das coisas estão em mim – e não nas coisas.

Quando subo pela haste da manhã, encontro uma cidade de cristal. Trouxeste-ma tu, na dádiva do corpo.

E se conseguisse tocar-te com a respiração, ouvia-te dizer:
- É na desolação dos dias que o meu olhar segrega o mel com que te alimentas.

Penso no que te vou deixar: nomes de flores e de estrelas para refazeres os jardins e as constelações, e o peso etéreo da minha morte – para continuares a celebrar a vida.

Insónia. Noite fria, repleta de medos. Noite sem fim.

Nada.

Levanto-me e abro a janela. Respiro fundo. Um fio de sol embate na garrafa de gin abandonada ao lado da cama.

Ponho os óculos e o dia torna-se nítido, focado, limpo, e cheira a violetas…

Às vezes, tenho a impressão de ter perdido a exactidão dos gestos e das palavras.

Estive tempo a mais sozinho – reaprendo, com dificuldade, a ser cúmplice, amigo, amante.
Não me desagrada a ideia de viver num farol abandonado. Não me desagrada a ideia que a luz se apague. Não me desagrada pensar que posso perder a lucidez.

Por isso bebo.
Beber ajuda a cicatrizar o olhar ferido da noite. Isola-nos do mundo, acende-nos os gestos, antes de nos perdermos de bar em bar.

Amantes e embriagados. Destinados à chuva das ruas, às cidades que ardem junto ao mar, ao silêncio azul das manhãs.

- Aí vem o 28 dos Prazeres… e um táxi.

- Não me abandones, fica…

E o vinte e oito passa, e passa o táxi, enquanto olhamos A Dança de Matisse na capa dum livro.

Vamos pela manhã que se ergue, suja, enevoada – onde as palavras que digo se confundem com o teu sorriso. E os semáforos mudam de cor, inutilmente.

Rua da Rosa, Travessa da Espera, Calçada do Combro. Silêncio sobre silêncio. A vida suspensa no estremecer de um abraço.
- Até logo. Se te lembrares de mim, telefona.

Fecho, por fim, as pálpebras. O teu rosto sobrepõe-se à imagem do meu rosto. A tua mão esconde-se na imagem da minha mão. E no espelho já não há imagens, nem corpos, nem mar…

Logo à noite, outra vez o olhar, os corpos, a chuva, o sono, a fuga, a alma, o dia, dos dias… o regresso. O telefone, e Lisboa a sussurrar no vento da tua ausência.

A vida é sacana. Sobretudo não é aquilo que nos disseram que era. Por vezes, quando nos sentimos a morrer, vemos como é disparatado saber que tudo vai acabar. Precisamente quando tínhamos descoberto alguém com quem podíamos falar.

Passamos a vida numa espécie de silêncio, numa mudez terrível que se quebra, ainda que raramente, diante de certas coisas que nos contaram e nos deslumbraram.

Mas é tarde. As coisas que nos deslumbraram eram efémeras, breves. E não se pode voltar atrás.

Tenho um amigo que disse:
- Sabes, a verdade nunca acaba.
Mas o que será a verdade quando estivermos mortos?

Penso no lugar secreto do Caos e da Ordem que se erguem, subitamente, diante daquele que ama, e escreve.

Um dia, disseste:
- A paixão serve para te mostrar os fogos da noite. 
Acreditei no que me dizias, mas já não consigo dormir, só morrer. O teu sorriso colou-se-me à boca.

Passo os dias a espiar as paisagens diluídas na memória que tenho de ti. Atravesso continentes que se transformam em minúsculas dores, pequenos territórios que cabem no fundo duma algibeira, ou em meia dúzia de palavras.

Lembro-me que numa viagem de comboio podemos encontrar gente cúmplice do silêncio – mas dificilmente um amigo de olhos cor-de amêndoa que te diga:
- O teu olhar é belo.
Espantado, respondes:
- O meu olhar só é belo porque se deixou aprisionar pelo teu. Nesse lugar profundo onde nos cruzamos e o mundo faz sentido. E quando a distância nos separar, e Lisboa for apenas uma impressão vaga de mal-estar, uma parte de mim pertencer-te-á.

Mentir é necessário. É a melhor maneira de esconder o que há de doloroso na verdade.

Repara, através dos meus olhos descobrirás como é a grande tristeza do mundo. Apenas isso. E, quando aqui não estiveres, espetarei todas as facas que encontrar nas paredes febris da noite.

Talvez sangre dos pulsos. Talvez te escreva. Talvez…

Olho atentamente as fissuras do tecto. Desloco-me através delas, alcanço a noite.

O teu rosto, de quando em quando, pousa na minha solidão.

Há vinte anos que a vida se apagou nas linhas da mão, e os jardins da cidade permaneceram, todo esse tempo, envoltos na bruma. O Tejo não deixou o tempo correr.
Mas um dia, talvez agora, abrirei as mãos no escuro do quarto, e o teu rosto incendiar-se-á.
As mãos queimadas, memória da tua passagem.
Por isso te escrevo, com esta luz encostada à boca. E espalho a cinza destas palavras pelo escuro da noite.

Perder-te, levar-me-ia ao zumbido ensanguentado duma bala. A paixão, a nossa, foi construída com a lentidão das obras-primas. E nela não há equívocos, nem erros.

O teu rosto é perfeito e intenso – brilha, assim que o nomeio ou toco: sinal de vida, estremecer do mundo na melancolia das mãos.

Assim te raptei uma noite – com ansiedade e susto. E assim te mantenho vivo, e amo, dentro e fora do poema. Hoje, tudo me parece novo e antigo, em simultâneo, como se já soubesse que havias de chegar e mudar-me a vida, o rumo dela, e depois partir.

Lá fora chove. Chove sem parar. E Lisboa parece encolher-se dentro do teu sono.

( Al Berto, Dispersos)

Cara Barata, Barata Cara, Caras Baratas


Preciso que
me reconheçam
que me digam Olá
e Bom dia
mais que de espelhos
preciso dos outros
para saber
que eu sou eu

( Adília Lopes, Caras Baratas)


Raios! (dos bons), para a simplicidade da poesia. E a verdade. Ai, a verdade.



sábado, setembro 11, 2010

Lover You Should Have Come Over




O Grace faz partes dos amores... e é Sábado. Não que isso importe, mas....
Ponto.

sexta-feira, setembro 10, 2010

23

A existência do terrível em cada partícula do ar. Tu respira-lo com a sua transparência: mas ele condensa-se em ti, endurece, assume formas pontiagudas e geométricas entre os orgãos; pois todas as torturas e terrores cometidos em lugares de suplício, nas câmaras de tortura, nos manicómios, nas salas de operações, debaixo dos arcos das pontes no fim do Outono: tudo isso é de uma resistente intemporalidade, tudo subsiste e se agarra, ciumento daquilo que é, à sua terrível realidade. As pessoas gostariam de poder esquecer muitas dessas coisas; o seu sono lima suavemente esses sulcos no cérebro, mas os sonhos expulsam-no e sublinham os seus desenhos. E elas acordam, ofegantes, e deixam diluir-se no escuro o brilho de uma vela e bebem como se fosse água açucarada este calmante semiclaro. Mas, ai, em que aresta resiste esta segurança? Basta o menor dos movimentos e já o olhar ultrapassa as coisas conhecidas e amigas, e o contorno ainda agora tão tão consolador precisa-se como uma orla de terror. Abriga-te da luz que torna mais vazio o espaço; não olhes à tua volta para ver se alguma sombra acaso se ergue atrás da tua vigília com teu senhor. Mais teria valido teres permanecido no escuro e o teu coração ilimitado ter tentado ser o coração pesado de tudo o que é indistinto. Agora que todo te recolheste em ti, sentes-te terminar nas tuas mãos, refazes, de tempos a tempos, o contorno do teu rosto com um movimento impreciso. E em ti quase não há espaço; e quase te apazigua o facto de, nesta tua tristeza interior, não ser possível deter-se qualquer coisa muito grande; o facto de mesmo o inaudito ter de se interiorizar e de se adaptar às circunstâncias. Mas lá fora, lá fora tudo é desmedido. E quando lá fora o nível sobe, também em ti ele se eleva, não nos vasos que em parte estão em teu poder, ou no fleuma dos teus orgãos mais impassíveis: eleva-se nos capilares, aspirado para cima em canais até às últimas ramificações da tua existência infinitamete ramificada. Aí se ergue, aí te ultrapassa, alcança mais alto do que a tua respiração, na qual te refugias como num último reduto. Ai, e agora para onde ir, para onde ir? O teu coração expulsa-te de ti mesmo, o teu coração persegue-te, e tu estás quase fora de ti e já não podes regressar. Como um escaravelho que se pisa, assim tu escorres dentro de ti, e a tua pequena parcela de dureza exterior e de adaptação não faz qualquer sentido. 
Ó noite sem objectos! Ó janela indiferente ao exterior, ó portas cuidadosamente fechadas; instalações de tempos remotos transmitidas, reconhecidas, nunca inteiramente compreendidas. Ó silêncio no vão das escadas, silêncio dos quartos vizinhos, silêncio lá em cima no tecto. Ó mãe: ó única, que dissimulaste todo este silêncio outrora, na minha infância. Que o toma sobre si, dizendo; não te assustes, sou eu. A que tem coragem de ser, em plena noite, este silêncio para aquele que tem medo, que está perdido de medo. Acendes uma luz e já o ruído és tu. Ergue-la e dizes: sou eu, não tenhas medo. E lentamente pousa-la e não há dúvida: és tu, tu és a luz que envolve os objectos familiares e queridos que ali estão sem segundo sentido, bondosos, simples, unívocos. E quando qualquer coisa se agita na parede ou dá um passo no soalho: então sorrir apenas, sorris, sorris com tranparência sobre um fundo claro para o rosto angustiado que te sonda com se tu te indentificasses com o mistério, nele submersa, e com qualquer som abafado, combinada com ele e de acordo com ele. Haverá poder que se compare ao teu poder no domínio terreno? Olha, há reis que jazem hirtos e o contador de histórias não consegue distraí-los. Sobre o peito venturoso da sua amada o terror insinua-se nele e torna-o trémulo e insensível. Mas tu vens e escondes o que é monstruoso atrás de ti e ficas completamente à sua frente; não como um reposteiro que ele pudesse erguer aqui e acolá. Não, antes como se o tivesses ultrapassado ao apelo daquele que de ti precisava. Como se te tivesses adiantado muito a tudo o que pode acontecer e tivesses deixado para trás apenas a tua corrida para ele, o teu caminho eterno, o voo do teu amor.

( Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge)

segunda-feira, setembro 06, 2010

Dorme, meu amor

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais


este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.


Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor —
a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos
agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,
meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e 
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos — a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

( Maria do Rosário Pedreira, O Canto do Vento nos Ciprestes)

Boa noite, Marta.


domingo, setembro 05, 2010

Os Cadernos de Malte Laurids Brigge



“Ah, mas que significam os versos, quando os escrevemos cedo! Devia-se esperar e acumular sentido e doçura durante toda a vida e se possível durante uma longa vida, e então, só no fim, talvez se pudessem escrever dez versos que fossem bons. Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se cedo bastante), – são experiências. Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos em regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe, – em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivemos que magoar quando nos traziam uma alegria e nós não a compreendemos (era uma alegria para outro -), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha com tantas transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurando alto e voaram com todos os astros, - e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto. É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual a outra, de gritos de mulheres no parto e de parturientes leves, brancas e adormecidas que se fecham. Mas também é preciso ter estado ao pé de moribundos, ter ficado sentado ao pé de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos que vinham por acessos. E também não é ainda bastante ter recordações. É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois as recordações mesmas ainda não são o que é preciso. Só quando elas se fazem sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já não se distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora muito rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas”.

(Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge , tradução de Paulo Quintela)


Acordo com o meu gato sobre a cabeça. acordo e é, finalmente, domingo. tomo um café para me recompor e tento manter essa paz que trazia do sono. saio e caminho ao som da Doing The Unstuck e penso que acordar deveria ser sempre assim. penso na tua poeticidade e no crime de te inventar em palavras inexistentes. ignoro esse pensamento, a irredutibilidade de te fazer só em palavras e me impor limites à descoberta. penso novamente na manhã, observo a paisagem, e como quase todos os dias, descubro um elemento novo. sorrio.

surge-me ao pensamento uma quantidade imensa de acordares. acordar seria ver um dos meus amigos tomar o seu chá e ler um dos seus livros pela manhã. acordar seria sentir o cheiro a compota no ar e ver outro dos meus amigos tão atencioso como sempre. acordar seria tê-la preocupada connosco. ou então tê-lo à nossa espera. e é quando concluo que isso me faz conhecer as pessoas. o acordar. acordar com elas. e surge-me a pergunta inevitavelmente "por que não convidamos nós ninguém para o pequeno almoço?" fazia sentido convidar as pessoas importantes para o começo do dia, quando ainda temos paz. sim, fazia. sorrio de novo.
não te sei ao acordar. imagino. imagino com a magia e com as estrelas sobre os olhos.
e é então que regresso a casa ainda a ouvir The Cure, transpiro poesia e paz. começo a ler Rilke e também eu me obrigo a sentar após ler sobre o jovem estrangeiro Brigge, mas ao contrário dele, as palavras nunca serão o meu fim. é simplesmente Domingo. um dos bons. daqueles que faz sentido. daqueles que ainda estão pela manhã, daqueles em que os amores se prolongam pelo dia e em que pensar não custa. 







terça-feira, agosto 31, 2010

Hoje apetece-me música

Porque a voz da Lisa Germano é amor puro.

domingo, agosto 29, 2010

Bem-me-quer!





Fausto:
Conheceste-me, anjo do meu coração,
Quando há pouco no jardim entrei?

Margarida:
Não vistes? Pus logo os olhos no chão.

Fausto:
E perdoas a liberdade que tomei?
E o que se permitiu minha ousadia
Quando da tal catedral saías no outro dia?

Margarida:
Era a primeira vez, fiquei perturbada;
Ninguém tinha nada que me apontar.
E pensei: Será que ele viu no teu andar
Qualquer coisa imprópria ou mais ousada?
Parece que ao primeiro olhar
Uma moça como eu decidiu namorar.
O que me deu, confesso não sei,
Para logo em mim achardes só favor;
Só sei que comigo me zanguei
Por convosco me não poder zangar.

Fausto:
Meu amor!

Margarida:
Posso?

Colhe um malmequer e começa a arrancar as folhas, uma a uma.

Fausto:
Que é isso? Um ramalhete?

Margarida:
É só um jogo.

Fausto:
Qual?

Margarida:
Não troceis! Ide!

Desfollha o malmequer, murmurando.

Fausto:
Que murmuras?

Margarida (a meia voz):
Bem-me-quer, mal-me-quer...

Fausto:
Oh, anjo em figura de mulher!

Margarida (continuando):
Bem-me-quer... mal... bem... mal-me-quer...

(Arrancando a última folha, num grito de pura alegria.)

Bem-me-quer!

Fausto:
Minha vida! É um divino oráculo.
O que essa flor te diz: que ele te quer bem!
Entendes o que isso é, que ele te quer bem?

Pega-lhe nas mãos.

Margarida:
Sinto um calafrio!

Fausto:
Não estremeças! Deixa que este olhar
E o calor desta mão te digam
O que é inefável é:
A entrega total e o sentir
Um êxtase que tem de ser eterno!
Eterno, sim! Seu fim seria desespero.
Um fim não! Não, sem fim!

Margarida aperta-lhe as mãos, liberta-se e foge. Ele fica um momento absorto e depois segue-a.

(Johann W. Goethe, Fausto)




Porque ainda é Domingo, porque não fui dormir, e porque às vezes me apetece exacerbar as paixões. Porque o amor se devia entregar assim simples, caindo como as pétalas da flor, incerto.









quarta-feira, agosto 25, 2010

48.

Para compreender, destruí-me. Compreender é esquecer de amar. Nada conheço mais ao mesmo tempo falso e significativo que aquele dito de Leonardo da Vinci de que se não pode amar ou odiar uma coisa senão depois de compreendê-la.

A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distracção especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.

(Bernardo Soares, O livro do desassossego)

quinta-feira, agosto 12, 2010

O nome da terra

Já sobre o meu peito não demoras
os pés miúdos, já a breve
dança dos dedos troca de cabelo,
porque tu cresces, cresces inclinado
para a difícil flor da nossa idade.
És agora o outro nome da terra,
ou simplesmente da eternidade.

Eugénio de Adrade, O outro nome da terra

terça-feira, julho 13, 2010

Com os olhos



Talvez um dia. Talvez um dia alcancemos essa voz, já sem o peso da luz sobre os ombros. Os olhos chegarão então ao fim da sua tarefa; os olhos, instrumentos felizes da realidade mais real. Porque ver sempre foi tocar. Tocar uma a uma cada coisa com os olhos, antes da mão se aproximar para recolher os últimos brilhos de setembro. Vede como se afasta com fulva lentidão de tigre.

(Eugénio de Andrade, Poesia)

segunda-feira, julho 12, 2010

Caem os sonhos um a um
e o sangue estremece.
Caem, e ficam no chão
de quem os morde e os esquece.


(Eugénio de Andrade, Poesia)

terça-feira, junho 15, 2010

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

sábado, junho 12, 2010

(...)

Tangerina, sem gomos nem miolo, sem caroço, a esvaziar-se das palavras em labirintos e travessias complicadas. mares, ventos, borrascas, cidades, luzes, chuvas, eclipses, corpos, é nas sarjetas da noite que Tangerina... bye bye, nos esgotos que Nervokid adormeceu. e eu, outra vez vivo, sem memória escrevo.

( Al Berto, À procura do vento num jardim d'agosto )

quarta-feira, junho 09, 2010

Cansada. Arrependida.

No chão.


E as tuas mãos por entre o meu cabelo. e permanecer no chão com a cabeça no teu colo.

E a mágoa e a dor de perder isso tudo e de te chorar como nunca.
e a fúria toda do amor sobre mim.
e a incurável doença de te pensar.
e a tristeza....

sábado, junho 05, 2010

Existem pessoas com uma fantástica habilidade para estragar tudo.



Eu sou uma delas.

terça-feira, junho 01, 2010

A criatura a evitar outra criatura por achar que essa outra criatura a vai evitar.


Damn....Stupid thing.

Agora a outra criatura vai ignorar a minha criatura.

Ponto.

Reflexão estúpida. Pensamentos estúpidos.



Vou adormecer estes pensamentos e pôr a tua imagem de lado. Aqui não há medo, nem hesitação, nem dor, nem saudades. Aqui anda tudo a mentir e a fazer-me sentir estranha. Sempre estranha. com criaturas de olhos postos em mim. Todas a criaturas, menos tu, que sempre evito, para rejeitar mais uma vez o medo. O medo da reacção, o medo da verdade. Porque eu sou uma criatura suja de solidão.


Boa noite marta.
Boa noite criatura.

terça-feira, maio 04, 2010

(...)

Alguém devia tocar-me para sentir que estou vivo,
que sou
uma estaca atravessada pelo sangue, e dela rebentam
por exemplo: áscuas. Isto é uma fábrica de demência:
palavras
onde se manobra a púrpura, onde
o aroma que mata ascende de jardins construídos
levemente
na escuridão. E uma imagem fecha
tudo o que se fecha: quartos,
dias sobre si mesmos, as frutas redondas por força
da doçura interna. Quando as vozes
ferozes se desengolfam, a terra
move-se como um músculo encharcado entre a boca
e o coração que não dorme
nunca. - E todas as minhas vísceras são
inocentes.

( Herberto Helder, Photomaton & Vox)

Excerto de uma insónia ou o tumulto da dor.


sábado, maio 01, 2010



A morte, o grito, a música. Tudo estremece cá dentro.

Fumo.

domingo, abril 18, 2010

quem nunca nasceu não morre nunca

(...) o rosto
ri: sob as maxilas, os ossos


mastigam palavras, rangendo:


fala sozinho, depois pára,


e enrola um velho cigarro,


carcaça onde toda a juventude


permanece, em flor, como um braseiro


metido em cofre ou em bacia:


quem nunca nasceu não morre nunca


(...)


Pier Paolo Pasolini

segunda-feira, abril 05, 2010

No centro há uma morte, há uma sombra de crime.
a sombra das horas, o mar sobre o vermelho.
o gato branco enjaulado,
pingando a tormenta cor-de-vinho na manta.
o veneno corre assassino, em motim.
no centro há a espera e
a tua ausência
p
i
n
g
a
-
m
e
à memória o negrume da revolta.
era um animalperfeito de brancura translucida,
manchado,
crivado pelo homem-fera.
na sombra há uma morte que cobre o centro da solidão.
há um rio da sangue que inunda as raizes,
incendeia o espaço e aniquila a sua perfeição.
era um animalperfeito impregnado de beleza eterna.
era um animaleterno diluido na melancólica solidão.

domingo, abril 04, 2010

Os corpos marchavam lentos, levados pela crença milenar. Assim nasceu a grande máquina. Em tempos houve de facto o modernismo. O homem mais racional, menos poluído, mais desmascarado. Não era um coração de plástico, nem um coração mecanizado. ainda não era cinemático. Hoje a demanda foi assassinada por designios maiores de valor menor. A máquina semeia a devassidão entre o homem-fera. Provavelmente seriamos mais férteis nesta terra estéril, não explodisse em nós o barulho surdo da modernidade, a abstrata inconsciência da mente, desolando a vida em tempos de paz. O homem-fera, a grande máquina, quero dizer, o grande pensamento vazio, corroído, despedaçado pela desnecessária necessidade de ter. O homem-fera, a visão amarga. Perdeu o sossego e o perdão, cheira a desastre e a ausência.  A velocidade, direi, é esmagadora. O homem-fera não dorme nesta selva cinzenta de animais tristes. O homem-fera esqueçeu o rasto dos ossos que o antecedeu. Luta a céu aberto a descrença milenar.



The Battleship Potemkin (1925) by Sergei Eisenstein.
Agora estás arrumado, calcinado e em branco.
surges entre as palavras, coagulado, empoeirado.
és abstrato e mecanico e absoluto.
surges no fim com a solidão tóxica e com a dor petrificada no peito.
explodes com o barulho demolidor das luzes.
não podias ser tão intermédio, nem devias ser absolutamente nada.
agora bates na pele, infiltras a absoluta perdição no sangue.
perturba-me ver-te mudar de cor, ver-te atravessado no meio da casa.
no fim, isto é, no fim do mundo, quando ele chegar,
estarás por cá, enrraizado,
a reluzir a tua cor branca ou amarela, quimico e puro na memória.
eléctrico nas mãos e no ruido.
puro, nesta casa solidão da cidade nocturna.
a tua máquina tem um botão oculto,
a tua máquina está ao abandono.
a tua máquina está morta.
as tuas veias já não brilham em tons de metal.
a tua máquina vai ser demolida, vai criar raizes e ferir a memória.
és um ser soberbo,
és o ser absoluto e masculino.
extingues-te.
a tua falta tritura-me os dedos,
cobre-me as mãos com sangue cor de tangerina.
aperto tanto quanto posso o deslumbramento da tua morte,
és sangue de poeta,
frágil na alucinação.
decompõem-se os designios cósmicos inconclusivos
e a dor de te pensar em absoluto e concreto.
acabas por fim.
 
 
p.s.: deus é cinemático, fala sânscrito e é megalomano.

sexta-feira, abril 02, 2010



Deus é um astronauta e uma vez por ano foge para o centro da terra. Por baixo da terra há uma sepultura luminosa e olhos incandescentes. Como uma mina, mas muito profunda percebes? uma mina dourada e forrada a veludo. ele faz de conta que o corpo anda fugido, desculpas de quem é invisivel e só aparece de vez em quando. como hoje por exemplo, passou o dia na televisão a repetir as mesmas coisas misteriosas de sempre, ninguém o compreende, mas toda a gente finge que sim.
o deus ri e faz a sua dança macabra. ás vezes penso que ele é um mágico que nos vais piscando o olho e que nos envia barcos em direção à eternidade, mais ou menos como um autocarro sem paragens. andamos por cá a venera-lo, a beija-lo e ele acaba sempre por se meter dentro da tal caixa de madeira ou lá faz um truque e transforma-se em cinza. transformou-se numa coisa ausente, que aparece quando quer. ninguém gosta disso, do seu jogo de escondidas e de palavras pouco claras. é dificil pensar as coisas de uma maneira pouco concreta, também já faz pouco sentido pensar, somos umas máquinas, o deus ou o semi deus pensa por nós, aliás, o deus gosta de aparecer na televisão, mas também é só de vez em quando, não fosse tornar-se um hábito perigoso e a ociosidade ser maior. ele é um tanto preguiçoso, já não escreve e o pouco que deixou por cá não é claro, já pensei se seria uma anedota, sim, porque andamos em guerra a tentar adivinhar que deus será. por mim pode ser um tipo que faz magia e que envia mensagens para o telemóvel, aparece na televisão e que escreve de forma concreta. não que não o seja, apenas se limita à magia da invisibilidade e raramente me pisca o olho. nunca ninguém disse que ele era uma coisa má, porque se supôs que ele era a coisa boa, uma coisa invisivel mas boa. ou ninguém vê maldade neste jogo de xadrez transformado em guerra, ou o confundem com todas as sombras de bondade. é natural, seremos morte nada melhor que dançar, afinal o corpo está doente e a alma sofre de cancro, o olhos, esses estão cegos, quem se importa com aquilo que está escrito, ou quantas formas toma o deus, a verdade absoluta não se questiona, nem que seja mentira, o senhor deus disse e pronto, está dito. não me perguntem que deus. ele não pisca o olho à Marta, nem joga às cartas com ela, nem nunca passa na sua televisão e também não escreve poesia ou coisas a braile para nós que andamos cegos entre a sua invisibilidade.

quinta-feira, abril 01, 2010

É o tal reconhecimento inútil que procuramos, faz de nós criaturas cuja farsa incessante gera este mundo ambiguo, é paradoxal porque é impessoal e intimo, é uma questão de matar os afectos, de quebrar de vez com a voz interior e de ignorar essa beleza constante e devoradora da vida. deixamos de ser racionais, apreciamos a guerra constante, no fundo é um quase um combate de um semideus que tenta a grande fuga, no fundo ninguém quer adiar o tremendo desespero que a morte imprecisa trouxe, nem ninguém quer dizer basta ou cair num lamento desmoronante. somos uma tensão real que ignora a voz do pensamento, parecemos isto humano e deus, domados pela ciência e loucura constantes. espalhamos o amargo desespero fragmentando até à exaustão por todas as criaturas. criamos uma civilização morta, de seres frios e animais destruidos. o semideus dança e ri, o semideus cria o reino da anarquia, e joga e os destroços vão ficando e não há racionalidade nem lamento porque as criaturas entre o deus e humano estão mortas, sujas e estragadas.



em fuga.

quarta-feira, março 31, 2010

Apago as luzes e pego no lápis, devia ser uma caneta como sempre, porque assim duravas, pensava eu, mas agora não sei nada de amores ou de ti. desgastaste-te no tempo como a tinta e hoje raramente me tocas a memória, dirias tu que assim é mais simples ou indolor. o corpo espera lento e calmo, pernoitas aqui enquanto a vida se repete nesta espiral terrivel. não me reconheço nos dias, não sei quando e onde terei morrido. sabes, é tudo lentissimo ou inútil e as estrelas estão queimadas, já não estás nesta solidão que costumava ser breve. tentei lembrar outra coisa além da tristeza da dua ausência que me danificou e matou o corpo. faço este exercecio, escrevendo-te a lápis no papel. não imaginas quantos recomeços como este se repetiram, ou as noites em que tentei agarrar-te à memória na esperança que ficasses na  solidão reconstruida. são dias de febre e de uma espécie de sono que se prolonga. não devias ter-me deixado aqui, neste lugar de desamor onde nada reconheço. não sei onde terás morrido ou quando. eu que pensava que as palavras tornariam jamais a ti. e tu voltas sem rosto para este lugar sem destino à felicidade. morreste-me e não te reconheci. hoje não digo tanto faz, por te tornares claro e humano em todos os recomeços do fingimento da morte.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Eu ia escrever sobre os ossos de vidro e o coração seco, mais seco. e ia escrever sobre a verdade presa a estas duas mãos e de como estou cansada, tão cansada como sempre. e de como estou arranhada, arranhada como sempre, e de como a tristeza já não me sabe a nada. e de como me sinto velha e só, antes da idade. e de desconfiar da pouca normalidade do meu ser. e de ser esta coisa de faz de conta que faz tanto de conta que já nem sabe quem é. e de querer fugir. fugir para dentro de mim. estou a desaparecer tanto. alguém agarre a marta ou alguém se deite aqui, com a face colada no chão. e as mãos fechadas. e as recordações todas. e a estranheza que não sai dos olhos. e as lágrimas para dar a ninguém. as paredes. a mentira. a música.alguém a tire daqui. ou alguem lhe arranque a verdade das mãos. que a máquina já estava em colapso. que os ossos já são frágeis e o coração secou. frio, vazio, só. uma pessoa qualquer no espelho de tristezas antigas. vou-me rir dos fantasmas, vou dançar na teimosa melodia antiga. vou deixar a cabeça implodir e depois vou tornar a falar de mim na terceira pessoa e fazer de conta que existo e que não sou uma mentira. porque não. não o sou. jáestoufartadepensarquemsou. não vou responder a isso. porque não consigo. porque já gritei e feri que chegue as mãos e elas mentem. mentem fechadas. mentem mortas pela monotonia. mentem mortas porque toda gente mente. mentem porque são isto que todos somos. talvez não mentissem ao meu gato. mas ele está morto e ao contrário delas não apareçe no espelho. nem fechado nem de forma nenhuma. nem vazio, nem evaporado.nem nada que me tire daqui e me faça verter lágrimas egoistas e mentirosas pela sua morte. ninguém que faça lamentar a perda de alma. porquê que tudo pareçe um desperdicio quando o tempo passa sem ninguém. é tudo uma maldita luta inútil. somos um e não dois. idiotas. eu não vou assumir isso. não vou. seja como for também já não tenho saida. já não tenho verdade e estou realmente cansada. devia rir. não vou sentir a tristeza de lutar por não perder a outra metade. nem vou ficar com a outra metade quanto essa metade já é uma parte completa e depois já são dois. são dois mas agem como se fossem um. não vou, ponto final. vou ver um filme e desrespeitar o meu ser e não chorar. não vou ouvir a música nem vou escrever palavras que me rasgam. vou permanecer neste silêncio absoluto e aguentar muito muito tempo. vou inspirar e escolher não ser isto que não doi. mascarada de uma dor qualquer semi-profunda. 

quinta-feira, janeiro 21, 2010

quarta-feira, janeiro 20, 2010




quarta-feira, dezembro 30, 2009

terça-feira, dezembro 22, 2009